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domingo, 15 de setembro de 2013


Sou aquele tipo de flor vermelha barata, comprada em qualquer feira, que não se nega a abrir para qualquer ameaça de raio de sol que surge no céu de algodão doce. Tenho a impressão que você me vê em preto e branco, que você é o dia cinza que me mata a sede. Temo que um dia as gotas salgadas que caem de nosso amor transbordem meu vaso pequeno, que minhas raízes se adaptem ao ambiente chuvoso. Talvez apodreçam em seu jardim. Meu monóxido de dihidrogênio. Embalagem de celofane que me sufoca.


Bruna Berri

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O inferno são os outros.



Meu inferno são os outros que penso que existem, mas não sei se estão aqui. Pode ser que você não passe de uma estranha desenhada em uma camiseta. Puro toque de um outro que me tocava – e era tocado – e hoje murcha ao me ver. Tenho medo de negar sua realidade, para não chateá-la – para não chatear-me. Lembro do cabelo negro sobre sua pele branca, translúcida. Lembro do sorriso amarelado, quase cruel. Lembro dos seus olhos amendoados, punitivos. Mas não lembro de suas vestes. Não lembro se seus longos fios eram lisos ou cacheados, mãos grandes ou pequenas, o som de um riso amargurado. Faz tanto tempo que você não aparece que quase não lembro do seu semblante. Você permite que eu pense que meu passado foi um surto, uma alucinação. É isso que me dizem todos os dias e já fazem quatro anos que você não está aqui para me contar quem é que me diz a verdade. Joaquina, você se lembra de mim? Pois não me esqueço de você.

Bruna Berri

segunda-feira, 3 de setembro de 2012


Nessa noite mal dormida o pensamento, por instantes, foi inevitável. Será que se eu estivesse com você estaríamos ambos de saco cheio por acordar cedo na segunda ou morreria junto naquele carro? E se?

quarta-feira, 27 de junho de 2012



Sinto vontade de reencontrar as palavras que perdi não sei bem onde, não sei bem quando, não sei por quê. Às vezes releio e sinto uma leve dor no peito, não choro. Talvez as palavras se foram com as lágrimas. As lágrimas que não choro mais. Há dias, antes de fechar os olhos me questiono se não choro porque sou feliz, eu não sei. Tenho vomitado mais... Palavras, não venham tão rápido assim. Já não tenho toda aquela rapidez dos 14 anos, eu, que não iria jamais crescer, tenho cérebro e corpo de adulto chato. Com 14, me lembraram ontem, eu pausava uma conversa para desenhar bonecos e suas expressões faciais. Hoje, não consigo pausar uma conversa para pensar no que conversar. Eu vomito, constantemente, porque já não tenho forças para pensar no que estou fazendo. Pois não estou. Não consigo me encontrar em minhas palavras porque já não estou em lugar nenhum, já não sou pessoa nenhuma, já não produzo lembrança alguma. Já não sei se é quente ou frio o ar que eu respiro, ou se a comida que como está boa ou ruim. Sinto saudades de ter paz, e conseguir ser triste de vez em quando para poder ser muito feliz às vezes.

Bruna Berri

segunda-feira, 19 de março de 2012

Anafilaxia


Morre. Morre desse jeito, com a cabeça encostada em meu peito. Renasça; segundos depois. Brota como um bonsai bem fertilizado e me dá aquele sorriso que você não sabe repetir nas fotografias. Dorme comigo essa noite, esquentando meu corpo nessa cama tão pequena que inventamos haver espaço para dois. Morre comigo essa noite que amanhã o dia é lindo. Amanhã - quando a sombra do filtro dos sonhos pendurado na janela produzir um mosaico em seu rosto - vou rezar para que você tenha sobrevivido. Por Deus, que eu não tenha te sufocado demais, que eu não tenha apertado demais entre os dedos esse coração que temo tanto perder, que eu não tenha roubado teu brilho por puro egoísmo em desejá-lo só para mim. Por favor, abra os olhos, desliza teu corpo em meu corpo. Morra mil vezes por dia só para me encontrar. Morra. Comigo. Outra vez. Acorde como num choque elétrico em que seu coração desiste, mas é loucamente forçado a pulsar, porque simplesmente ainda não é a hora de ir embora.

Bruna Berri

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Adeus, Meus Sonhos!



Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

Álvares de Azevedo

quarta-feira, 26 de outubro de 2011


Hoje, ao meio de um ônibus de sorvetes, senti muito a sua ausência. Senti uma falta imensa, uma saudade gigantesca, que eu nunca achei que, acordada, pudesse sentir. Não me lembro mais se o que eu sinto é verdade ou mentira, se é mera ilusão do tempo, do sonho, no inimaginável imaginado, ou se é fato. Embora eu pense que se fosse fato, eu saberia. Contudo, não sei. E esse não saber me traz uma paz imensa, com uma falta imensa, com um não saber imenso, com um segredo imenso que não existe. Só que às vezes, estranhamente, penso muito em você e pergunto-me, escondido, se você, às vezes, estranhamente, pensa muito em mim também.

Bruna Berri

quarta-feira, 17 de agosto de 2011


Haveria possibilidades de existir alguém nesse mundo que me amasse da maneira exata como sou? Existiria estrutura que não abalaria com minhas mudanças climáticas e repentinas? Seríamos felizes?

Bruna Berri

terça-feira, 12 de julho de 2011


“Enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo. Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora, soltar, desprender-se. As pessoas precisam entender que ninguém está jogando com cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.”

Fernando Pessoa

terça-feira, 14 de junho de 2011


É que na verdade eu tinha muito preguiça para estudar a ciência, no fundo no fundo, lá no fundinho, eu nem queria estudar a loucura, eu queria ser o louco.

Bruna Berri

sexta-feira, 10 de junho de 2011


6:15h da manhã. Florianópolis, 09 de junho de 2011.

Frio, o dia ainda era noite, talvez o sol tenha ficado com preguiça de subir o morro, entendo-o completamente. Conto até três para tirar o pijama o mais rápido possível e entrar no chuveiro que vaporiza meu espelho. Nossa, como é bom sentir a água que quase queima a pele escorrer entre os fios de cabelo nas costas e pés – que aprontaram-se a ficar vermelhos. Senhores deuses que perdoem pelos quinze minutos atrás que desejei estar em todos os lugares onde não precisasse acordar. É mentira e peço desculpas às pessoas do mundo por minha atitude insolente. Agradeço ao mundo, ao sol, à lua, à deus – ou seja lá qual for o nome, pois não importa -, aos meus pais e país pela vida que tenho. Agradeço pelo alimento que nunca me faltou, às oportunidades cotidianas, ao cobertor que me aquece, por ter amigos e um amor que me acolhe. É claro que às vezes há uma dor no peito que não há comida ou cobertor que conforte, mas diante de todas as dores do mundo, fico contente que estas sejam as minhas.

Bruna Berri

terça-feira, 3 de maio de 2011


Não sei mais escrever, eu quero e não consigo. Como um soldado que perdeu a mão direita na guerra, apesar de senti-la, já não pode lutar.

Bruna Berri

quarta-feira, 15 de setembro de 2010


Estive tão triste que quase não soltei a tua mão quando pegaste a minha de surpresa.

domingo, 6 de junho de 2010

Leve desespero


Ninguém vai te salvar, estúpida. Não aparecerá ninguém que lhe abrace e absorva a sua dor. Pare de esperar pendurada em suas cortinas, porque as ruas serão sempre desertas. Pare de chorar, de soluçar, de desabar, porque não há ninguém a ser esperado, entende? Não há mais remédio. Ele também há de partir, um dia. Eles, aos poucos, partirão. E você ficará e não deverá entrar em desespero antes que sua história comece a ser escrita.
Eu sei, não há como dormir em paz.
Por que ele não volta?
Não sei, não sei. Mas pare, você, de esperar. Pare, você, de entregar sua felicidade em mãos desastradas. A solidão não é tão ruim, principalmente quando não se está só. Pare, você, de pensar que está.


Bruna Berri

sábado, 20 de março de 2010

Fragmentos eternos


Entenda-me se às vezes quase morro de saudades. Entenda-me, porque às vezes sou quase um vazio constante. As fotos atiradas sobre a cômoda são apenas fotos, não preenchem mais, não matam e me matam. Ando tão necessitada de seus sorrisos, abraços, mancadas. Éramos um. Somos ainda. Somos um em fragmento espalhados pelo mundo.
E se sinto falta dos pedaços que me pertencem por direitos conquistados – porque toda amizade é conquistada – é porque ainda os amos, e continuarei amando até morrer de tanta saudade.


Bruna Berri


P.S: texto dedicado às companheiras de minha vida.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Reabastecer



Depois de tanto tempo deglutindo o amor percebo que amor, somente amor, não satisfaz. Aliás, o amor - palavra que de tão incógnita torna-se indigna de significado - não explica nada.
Porque eu, no mais profundo de mim, preciso injetar doses altas de adrenalina diariamente, e não quero amor só para de vez em quando, quero um êxtase eterno.


Bruna Berri

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Por quase...



Eu sou da noite, do escuro... Por mais que ele já tenha me causado medo. Gosto de sentir o aconchego quase quente da água acolhendo meu corpo e o vento quase gelado tocando-me de surpresa. E meu corpo arrepia por inteiro, pedindo por mais. Mais verão, mais inverno, mais choque. Quero me eletrizar por inteira.
No escuro se vê aquilo que o sol não mostra, e se sente. E as ondas chegam quase sádicas querendo levar teu corpo quase nu para onde a respiração esgota. Fico imóvel e meu corpo resiste a quase sensação de ser engolida pela vida.


Bruna Berri


"E quando eu vejo o mar existe algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobabem." (Renato Russo)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Espera invísivel




Ele só volta às vezes, quando está curado. Sempre partiu destruído, em pedaços. Por que você o destrói? Não menina, você não vai reconstruí-lo dessa vez. Quando ele parte, parte sem planos para voltar, sem data de retorno. E se volta, não vai lembrar. Perda de memória recente? Talvez antiga, talvez nem perca.
Talvez só finja, porque você é uma farsa menina. Mas não se preocupe, não fosses a única...
Ele esqueceu quem é.
Veja só que curioso, ele não se lembra de nada. E talvez nem volta, nem venha, nem vá. Talvez ele não lembre porque só você lembra, menina. Só você sabe. Sabe como ele é, quando é, quanto é. Apenas você. Só.
E nunca vai apresentá-lo a seus pais e amigos, nunca irá levá-lo a lugar nenhum. Porque lugar nenhum, minha pequena, não existe. Lugar nenhum é onde ele está. Ou não está. E jamais saberá, jamais irá visitá-lo.
Mas como querer tão bem a ninguém? Diga-me como conseguisses esta façanha. Pare de esperar e entenda. Ele não vai voltar porque nunca existiu. E nunca existirá.

Bruna Berri

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Liberdade solitária


E lá estava Thomas de novo a desenhar-se vazio. Não desenhava seu corpo em si, mas sim a solidão que o habitava. Solidão da qual apreciava, da qual absorvia sabor doce, quase enjoativo. Não tão enjoativo a ponto de querer jogar fora, só por alguns momentos...
Thomas não era triste. Thomas não era nada, porque Thomas era tudo. Thomas era aquilo que decidia ser, no momento mais adequado. Nunca foi verdade. Sempre, sempre mentira. Desde criança... Desde quando esbanjava para seus primos a quantidade gigantesca de amigos que o embalava no balanço, ninguém via seus amigos, ninguém os enxergava. Ninguém, nem mesmo seu cachorro, acreditou em sua verdade. Até que Thomas deu-se por convencido, e acreditou na mentira alheia. Thomas mentia.
Não tinha apego à coisa nenhuma. Nunca chorou pela perda de alguém, a não ser a sua. Thomas sempre chorava quando se perdia, quando não sabia o que fazer. Thomas chutava a porta e depois ria, não faria nada, ele sabia.
Thomas pensava em viver sozinho, distante, numa montanha – com um lago se possível. Esperava ser esquecido pelo mundo, e assim, quem sabe poder esquecer o mundo também. Porque o mundo, para Thomas, era faca de dois gumes. E as cicatrizes, tão profundas que quase não se viam, o incomodavam constantemente.
Thomas aprecia a escrita, mas só escrevia morto. Sabia bem que as palavras só desenhavam-se no papel quando estava ferido, sangrando. E conhecia bem seu lado masoquista, apreciava sua dor.
Thomas não sentia por ninguém, e ninguém sentia por Thomas. E gostava disso, do desapego. Odiaria depender da vida de alguém, odiaria ainda mais se dependessem da sua. Thomas era livre, solitariamente livre. Solitariamente embalado por amigos inexistentes, era assim que Thomas gostava de viver. Solitariamente.

Bruna Berri

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Relances solitários



Sou a favor daqueles que pensam em não dizer. Se você não sente, não diga... Pois há quem sinta, e quem espera ouvir, e há quem cairá ao perceber o quão fracas podem ser as palavras. Se você não espera perder o seu fôlego, não tranque a respiração. Pois vai parar de respirar assim que quiser mais e isso sufoca. E, particularmente, isso me sufoca de uma maneira irreversível... Céus! Não quero partir, não quero desistir agora. Contudo, quando se está à beira de um abismo, ele te consome por inteiro. E se você não espera ser controlado, mantenha seu controle intacto.

Mas não há nada que me tire tanto o controle quanto sua indiferença.


Bruna Berri