terça-feira, 10 de março de 2009

Garoto escuro


Eles vinham andando no escuro, todos de preto. O da frente foi o que mais chamou minha atenção. Sua capa longa arrastava pelo chão e balançava seu negro brilhante conforme o vento frio dançava com o tecido pesado.
Ele era seguro de si – eu pensava. Caminhava de cabeça erguida, passos firmes. Os olhares a minha volta acompanhavam todos os seus passos, fiz o mesmo. Parei discretamente em frente a uma vitrine, aguardei.
Conforme ouvia seus passos se aproximando fui perdendo a segurança que tinha em mim, desejando sair correndo. E quando ele já estava bem perto, desviei meus olhos ao seu encontro e o encarei por dois segundos.
Terrível sensação. Havia tanta frieza e maldade naqueles olhos que me fez sentir medo. E ri. Ri porque é isso que faço quando estou nervosa. O segui com o olhar até desaparecer de vista.
Não pude reparar nos detalhes, a lua estava cheia, mas as nuvens a cobriam quase que por inteira. Os postes costumavam falhar.
Desejei ardentemente que ele passasse por mim de novo. Eu queria poder lembrar dos traços de seu rosto. Queria saber se ele gosta de astrologia e matemática. Queria tocá-lo, sentir sua pele fria queimar a minha.
Entretanto, ele era o escuro. O mesmo escuro que eu tanto temia. Que me faz ver monstros nas sombras do vai e vem dos carros na rua. Ver serras elétricas nas hélices do ventilador. Ele era o mesmo escuro que me fez criar o hábito de acender todas as lâmpadas, até mesmo na luz do dia.


Bruna Berri

sexta-feira, 6 de março de 2009


A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.


Vinícius de Moraes

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

Distante


Ontem pude vê-lo, de longe. Era escuro, já tarde da noite, mas sua estrutura é inconfundível. Já fazia meses que não o via. Dias que não lembrava de sua existência.
Nós fixamos por 5 segundos, não sei se fui reconhecida... na verdade nem me importo.
Já fazia tempo que havíamos sidos enterrados. Há tempo não existia “nós dois”. Era eu e ele, desunidos. Histórias diferentes, destinos diferentes.
Não lembro ao certo o que nos unia. Nem como chegamos aonde chegamos. Mas lembro que te via passar várias vezes por mim, e pude observar o quanto aquilo me encantava.
Atraia toda a minha atenção, todo o meu sentimento. Me sentia nervosa, agoniada. Não sabia o que falar, se devia falar. E então eu ria, ria de mim, da situação, de você, da vida. Sorria porque não havia palavra nesse mundo que pudesse expressar o que eu sentia ao ouvir sua respiração forte.
Não sei se foram as derrotas, ou o quando me amarguei com a vida, mas hoje trago em mim muita indiferença a tudo e todos. Mas nem sempre foi assim.


Bruna Berri

segunda-feira, 2 de março de 2009


Estou quase sem voz diante da situação. Vejo a luz e o escuro juntos, o tempo todo. Lado A e Lado B. Fogo e água. Mas eu não quero, eu não quero dois lados. Quero um só, quero ter certeza. Quero poder olhar e ter uma resposta convicta. Largar o “eu não sei” do meu cotidiano.
Eu só desejo realmente a verdade. Se não for pedir demais.


Bruna Berri